
Capítulo 23-Sorriso Também Tem Bastidores
Hoje aconteceu-me uma daquelas coisas…
Pensei que talvez vos devesse contar porque nasceram estas crónicas.
Muitos perguntam-me como consigo escrever com tanto humor.
A resposta é simples.
Porque preciso.
Estas páginas não nasceram para esconder a realidade.
Nasceram para me ajudar a caminhar com ela.
Desde que a doença oncológica do João entrou nas nossas vidas, os dias deixaram de ser previsíveis.
Passámos a viver entre esperança, exames, tratamentos, consultas e aquela palavra pequenina que pesa toneladas: “esperar”.
Esperar por notícias.
Esperar por resultados.
Esperar que o amanhã seja um bocadinho mais leve.
E, no meio de tudo isso, nasceu a Miúda Gira.
Depois apareceu a Consuela.
Mais tarde juntaram-se o aspirador, o espelho, o GPS, a menopausa, os móveis em constante mudança… e, sem eu dar por isso, começaram todos a fazer parte da família.
Não nasceram para brincar com a dor.
Nasceram para não deixar que a dor ocupasse a casa inteira.
Porque uma coisa aprendi.
Sorrir não significa que a vida esteja perfeita.
Nem significa que não existam dias difíceis.
Significa apenas que, apesar de tudo, ainda escolhemos deixar entrar um bocadinho de luz.
Há dias em que esse sorriso nasce naturalmente.
Noutros… é quase um ato de coragem.
E está tudo bem.
Escrever estas crónicas tornou-se a minha forma de equilibrar os dias.
Enquanto escrevo, descanso um bocadinho o coração.
Enquanto vocês sorriem ao ler a Consuela a discutir com o aspirador ou a mudar os móveis de sítio, eu também encontro um pequeno refúgio.
Porque o humor não apaga os problemas.
Mas, por momentos, faz com que eles deixem de ocupar todo o espaço.
E isso já vale muito.
A doença do João continua a fazer parte da nossa história.
Não a ignoro.
Nem a esquecerei.
Mas também não lhe vou entregar todas as páginas da minha vida.
Algumas ficam guardadas para o amor.
Outras para a esperança.
E muitas… para uma boa gargalhada.
Porque, convenhamos…
Se a Consuela conseguiu sobreviver à revolução dos móveis, acredito que nós também conseguimos sobreviver a mais um dia.
Um de cada vez.
E, se ela insistir em reorganizar a sala enquanto eu escrevo… pelo menos já sei onde procurar inspiração.
Há dias em que escrevo para fazer companhia aos outros. Hoje escrevi para vos deixar fazer-me companhia a mim. ❤️
Com carinho,
Carla Milho,
As confissões de uma miúda gira 🥰❤️