
Há muitos anos que o Capitão Gancho corria atrás do Peter Pan.
Toda a gente pensava que era para acertar contas antigas.
Puro engano.
Desta vez, corria atrás dele com um bloco de notas numa mão e uma caixa de lenços de papel na outra.
Enquanto corria pela floresta, gritava a plenos pulmões:
— Sininho! Anda cá depressa! O rapaz voltou à adolescência!
Os Meninos Perdidos olharam uns para os outros.
— Voltou?
— Sim! Porque, ao que parece, nunca chegou a sair de lá…
Peter Pan continuava a correr, muito divertido.
— Não preciso de terapia!
Gancho, já ofegante, respondia:
— Precisas, sim! E com urgência!
— Eu estou ótimo!
— Peter… ontem disseste que ias organizar a tua vida…
— E vou!
— Quando?
— Um dia destes!
Gancho levou a mão à testa.
— Estão a ver? É exatamente disto que eu estava a falar!
Nisto, apareceu a Fada Sininho, muito calma, como quem já tinha visto aquele filme umas trezentas vezes.
— O que aconteceu agora?
Gancho apontou para Peter, completamente desesperado.
— As hormonas da adolescência tomaram novamente conta dele!
Peter ficou escandalizado.
— Quais hormonas?
— Todas! As da distração, as do “logo faço”, as do “não fui eu” e, principalmente, as do “coitadinho de mim”!
Os Meninos Perdidos começaram a tomar apontamentos.
Aquilo prometia.
A Fada Sininho aproximou-se de Peter.
— É verdade que hoje perguntaste se a cama se fazia sozinha?
Peter encolheu os ombros.
— Eu estava só a testar uma teoria…
Gancho interrompeu:
— E anteontem tentou convencer toda a gente de que a roupa limpa nasce diretamente dentro do armário!
Peter sorriu.
— Era uma hipótese…
A Fada Sininho suspirou.
— Gancho… qual é o diagnóstico?
O Capitão abriu solenemente o bloco de notas.
— Caso gravíssimo.
— Gravíssimo?
— Sim.
— Explica lá.
Gancho pigarreou como um verdadeiro especialista.
— O paciente apresenta alergia crónica às responsabilidades, excesso de entusiasmo pelas aventuras, dificuldades persistentes com a expressão “eu trato disso” e uma preocupante dependência do amanhã.
Peter levantou a mão.
— Posso fazer uma pergunta?
— Podes.
— A terapia dói?
Gancho sorriu.
— Não.
— Então como funciona?
— Muito simples.
Sempre que disseres “logo faço”…
…vais fazer logo.
Peter ficou em choque.
Os Meninos Perdidos prenderam a respiração.
Até o crocodilo deixou cair o relógio.
— Isso parece muito radical! — exclamou Peter.
A Fada Sininho não conseguiu evitar um sorriso.
— Não é radical, Peter…
— Então o que é?
— Chama-se crescer um bocadinho.
Peter ficou a pensar.
Pensou durante quase dez segundos.
Um novo recorde na Terra do Nunca.
Depois respondeu muito sério:
— Acho que preciso de uma segunda opinião.
Gancho sorriu.
— Já pedi.
— A quem?
— Ao crocodilo.
Peter olhou para o crocodilo.
O crocodilo encolheu os ombros e fez apenas:
— Tic… tac…
Gancho bateu com a mão no ombro de Peter e concluiu:
— Estás a ouvir?
— O quê?
— O tempo.
Porque até na Terra do Nunca ele passa… só tu é que insistes em fazer de conta que não!
E dizem as más línguas que, desde esse dia, sempre que o Capitão Gancho vê o Peter Pan com mais uma ideia brilhante, já nem tira a espada.
Tira apenas o bloco de notas, sorri e grita:
— Sininho! Traz a consulta de acompanhamento… que o nosso adolescente preferido voltou a ter uma recaída!
Com carinho,
Carla Milho as confissões de uma miúda gira 🥰❤️