No Clube do Café, a paz durava exactamente o tempo que o João demorava a beber o primeiro café e o Ivan a descobrir alguma coisa com que implicar.
A chefe Carla Milho mantinha a organização sob controlo, ou pelo menos era essa a versão oficial. Na prática, governava uma família em que o bom senso era um recurso escasso e a obediência uma espécie em vias de extinção.
Tudo corria dentro da normalidade, até ao dia em que o Fenando decidiu anunciar uma mudança radical na sua carreira.
O gato gordo, conhecido pelo seu apetite voraz, pela capacidade de dormir em posições geometricamente impossíveis e por considerar qualquer pacote de chouriço propriedade privada, apareceu à frente da chefe Carla com um ar solene.
— Chefe, venho apresentar uma proposta de adesão à sua equipa.
Carla levantou os olhos da chávena.
— À minha equipa? Fenando, tu já fazes parte desta casa!
— Sim, chefe, mas quero subir na hierarquia. Estou interessado numa posição mais activa.
João engasgou-se com o café.
— Activa?! Este gato só se mexe quando ouve abrir o frigorífico!
Ivan, que até ali estava ocupado a vigiar o conteúdo do prato alheio, decidiu intervir:
— Isto cheira-me a golpe de Estado. Primeiro pede um cargo, depois exige uma cadeira própria, a seguir quer um salário em sardinhas e, quando dermos por isso, estamos todos a trabalhar para ele!
Fenando ignorou os comentários, como qualquer verdadeiro mafioso felino faria.
— Chefe, há uma coisa que me fascina desde o primeiro dia em que a vi em acção.
Carla endireitou-se, orgulhosa.
— A minha capacidade de liderança?
— Não, chefe.
— A minha inteligência estratégica?
— Também não.
— A minha elegância?
Fenando hesitou.
— Bem… isso também não é propriamente o que me tira o sono.
João baixou a cabeça para esconder o riso.
— Então, criatura, o que é que te fascina?!
Fenando ergueu as orelhas, os olhos brilharam e a cauda começou a bater no chão.
— O APITO, CHEFE! ADORO O SOM DO APITO!
Seguiu-se um silêncio tão profundo que até o Jacks, se estivesse presente, teria parado de babar durante três segundos.
Carla ficou a olhar para o gato.
Depois sorriu.
Um sorriso perigoso.
Um sorriso de quem acabara de encontrar o elemento perfeito para a sua organização.
— Fenando, estás contratado!
— CHEFE! — exclamou o gato, emocionado. — Prometo dedicação, disciplina e disponibilidade total para apitar sempre que for necessário!
— Excelente! A partir de hoje, serás o meu assistente de apito e responsável pela manutenção da ordem no Clube do Café!
— Posso treinar já, chefe?
— Claro!
Carla entregou-lhe o apito.
Fenando inspirou profundamente e…
FIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!
João deixou cair a colher.
Ivan saltou da cadeira.
Uma vizinha bateu na parede.
E um passarinho que estava tranquilamente no quintal abandonou o ramo como se tivesse acabado de receber uma ordem de despejo.
Fenando, pelo contrário, estava radiante.
— OUTRA VEZ, CHEFE?
— Quando quiseres, meu rapaz!
E foi assim que começou o maior desastre sonoro da história do Clube do Café.
Reunião de urgência: a conspiração contra o apito
Passados quinze minutos, João convocou uma reunião de emergência.
Ivan apareceu com um bloco de notas, três canetas e a expressão de quem estava prestes a apresentar uma queixa formal à União Europeia.
— Isto não pode continuar! — declarou João. — O gato está a apitar desde que recebeu o cargo! Já apitou para anunciar o café, para anunciar que o café estava quente, para anunciar que o café estava frio e, há cinco minutos, apitou porque viu uma mosca!
— A mosca era suspeita! — ouviu-se dizer Fenando, do corredor.
FIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!
Ivan levou as mãos aos ouvidos.
— ESTÁ A VER?! NEM NUMA REUNIÃO SE PODE FALAR!
Carla entrou na sala com toda a tranquilidade, seguida de Fenando, que trazia o apito ao pescoço como se fosse uma medalha de honra.
— Qual é o problema, cavalheiros?
João respirou fundo.
— Carla, com todo o respeito, este gato transformou a nossa vida num estádio de futebol!
— Não exageres, João.
FIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!
— EU JÁ NÃO CONSIGO OUVIR OS MEUS PRÓPRIOS PENSAMENTOS!
Ivan levantou-se.
— Proponho que o apito seja confiscado imediatamente!
Fenando arregalou os olhos.
— Confiscado?! Mas isto é perseguição profissional! Eu tenho direitos! Tenho uma função! Tenho uma missão!
— Tens é pulmões de elefante! — respondeu Ivan.
— Sou um gato, ignorante!
— Isso já nós percebemos. O problema é que pareces uma locomotiva!
Carla bateu com a mão na mesa.
— ORDEM!
Fenando levou imediatamente o apito à boca.
— FIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!
— FENANDO! — gritaram os três em coro.
O gato baixou o apito, ofendido.
— Então a chefe pede ordem e eu não posso colaborar? É assim que tratam os funcionários dedicados nesta organização?
João olhou para Ivan.
Ivan olhou para João.
Ambos perceberam que estavam perante um problema grave: o gato tinha aprendido a usar a burocracia a seu favor.
☕ O plano secreto de João e Ivan
Durante uma pausa na reunião, João e Ivan reuniram-se discretamente na cozinha.
— Temos de fazer alguma coisa — sussurrou João.
— Já pensei numa solução — respondeu Ivan. — Vamos trocar o apito por um brinquedo que não faça barulho.
— E achas que ele não vai reparar?
— João, estamos a falar de um gato que comeu metade de um presunto e depois passou três horas a procurar a outra metade. A atenção dele não é propriamente um exemplo de excelência.
O plano parecia perfeito.
Ivan aproximou-se de Fenando com um brinquedo de borracha.
— Ó Fenando, olha o que tenho aqui para ti.
O gato cheirou o brinquedo, olhou para Ivan e depois para o apito.
— Isto não apita.
— É uma versão moderna. Mais discreta. Muito profissional.
Fenando estreitou os olhos.
— Ivan, posso ser gordo, guloso e gostar de dormir, mas não nasci ontem. Isto é uma tentativa de sabotagem!
João apareceu à porta.
— Ninguém está a sabotar nada!
Fenando levantou-se lentamente, aproximou-se dos dois e anunciou:
— A partir deste momento, considero-vos suspeitos de conspiração contra a autoridade do apito.
E apitou.
FIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!
João sentou-se no chão.
Ivan declarou que precisava de férias.
E Carla, que assistira a tudo escondida atrás da porta, estava tão satisfeita que quase se engasgou a rir.
— Este gato ainda vai longe! — murmurou.
A decisão final da chefe
No fim da reunião, Carla tomou uma decisão histórica.
— O Fenando mantém o cargo, mas haverá regras!
João e Ivan endireitaram-se, esperançosos.
— Primeira regra: o apito só pode ser utilizado em situações de emergência.
— Defina emergência, chefe — pediu Fenando, já com o apito na boca.
— Incêndios, intrusos e ameaças à segurança!
— E quando alguém abrir uma lata de atum?
— NÃO!
— E quando aparecer chouriço?
— NÃO!
— E quando o João disser que vai fazer dieta e comer a minha ração para provar que é saudável?
João ficou indignado.
— EU NUNCA FARIA ISSO!
Fenando virou-se lentamente para Carla.
— Chefe, temos aqui uma situação potencialmente suspeita.
Carla tapou a boca para não se rir.
— Segunda regra: o apito fica guardado durante a noite.
Fenando baixou as orelhas.
— Mas, chefe…
— Sem mas!
— E a terceira regra?
Carla sorriu.
— A terceira regra é que, a partir de amanhã, o Ivan fica responsável por ensinar o Fenando a utilizar o apito com moderação.
Ivan ficou branco.
— EU?! MAS PORQUÊ EU?!
— Porque foste tu que propuseste o confisco. Considera isto uma oportunidade de crescimento profissional.
João começou a rir-se tanto que quase caiu da cadeira.
Fenando aproximou-se de Ivan, colocou-lhe uma pata no braço e falou com uma solenidade comovente:
— Colega, conto contigo para me ajudares a aperfeiçoar a minha técnica. Tenho grandes ambições nesta organização.
Ivan olhou para o tecto.
— Meu Deus, dá-me paciência. Porque, se me deres força, este gato vai conhecer o significado de voo picado!
FIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!
— FENANDO, O APITO ESTAVA GUARDADO! — berrou João.
O gato piscou os olhos, muito inocente.
— Foi o último, chefe. Juro pela minha tigela de ração!
Carla levantou-se, pegou na chávena e declarou encerrada a reunião.
— Muito bem, meus senhores. A reunião terminou. A máfia continua de pé, o café continua quente e o Fenando está oficialmente ao serviço.
João suspirou.
Ivan começou a procurar anúncios de casas para alugar longe dali.
E Fenando, instalado confortavelmente na cadeira da chefe, observou os dois com um ar de absoluta satisfação.
Afinal, tinha conseguido tudo o que queria: um cargo, um apito e o poder de interromper qualquer conversa sempre que lhe apetecesse.
Moral da história: nunca subestimem um gato gordo com ambições profissionais. Pode passar dezasseis horas por dia a dormir, mas, quando lhe dão um apito, transforma-se imediatamente num director de operações com tendências ditatoriais.
E no Clube do Café ficou uma certeza:
A chefe Carla mandava na máfia.
O João e o Ivan tentavam sobreviver.
Mas quem realmente controlava o ambiente…
Era o Fenando.
FIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII! 😅☕🤣
Continua… porque, ao que parece, o Fenando já está a estudar a possibilidade de exigir um salário pago em chouriço e uma viatura oficial com lugar para sestas.☕🤣

Carla Milho, a Chefe da Máfia do Clube do Café ☕🤣