
Tu sabes, a solidão tem esse jeito de se infiltrar sem pedir licença. No início parece só silêncio, uma pausa, um intervalo necessário. Mas depois — quando dás por ela — já não é intervalo nenhum: já é rotina, já é companhia, já é cama partilhada. É complexo, eu sei.
E tu ficas aí, nesse lugar que ao princípio era vazio, mas que agora já quase te parece aconchego. E isso é o que mais me assusta: que confundas solidão com conforto. Que te habitues ao eco em vez da voz, à ausência em vez do abraço, ao nada em vez do tudo.
Tu não foste feito para ser ilha. Não foste feito para conversar só contigo. Não foste feito para engolir palavras que nunca chegam a boca nenhuma. Tu foste feito para o barulho de outros passos, para o calor de outra pele, para o risco de dar e o risco de receber.
Solta-te. Não fiques amarrado ao cais da tua própria sombra. Vai. Mesmo que te doa. Mesmo que te enganes. Mesmo que regresses com feridas nos bolsos. Porque mais duro do que voltar de mãos vazias é nunca ter saído a procurar.
E escreve, por favor escreve. Deita cá para fora o peso que carregas. Não deixes que a solidão se torne o teu sobrenome. Escreve até que doa menos. Escreve até que a ausência volte a ser ausência, e não presença disfarçada.
A solidão é apenas uma camuflagem para uma presença que gritamos dentro de nós e criam ecos mudos que não chegam a ser ouvidos!
Carla Milho as confissões de uma miúda gira 🥰❤️