A sílaba

Por isso a procurava com obstinação

Toda a manhã procurei uma sílaba.

É pouca coisa, é certo :uma vogal,

Uma consoante, quase nada.

Mas faz me falta. Só eu sei

A falta que me faz.

Por isso a procurava com obstinação.

Só ela me podia defender

Do frio de Janeiro, da estiagem

Do verão. Uma sílaba.

Uma única sílaba.

A salvação.

Poema de Eugénio De Andrade

Quem a tem…

Embora ao mundo pertença

Não hei de morrer sem saber

Qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser

Desta terra em que nasci.

Embora ao mundo pertença

E sempre a verdade vença,

Qual será ser livre aqui,

Não hei de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,

É quase um crime viver.

Mas, embora escondam tudo

E me queiram cego e mudo,

Não hei de morrer sem saber

Qual a cor da liberdade.

Poema de Jorge Sena.

A segunda canção com lágrimas

Meu amigo cantava. Dizem que cantava.

Meu amigo cantava. Dizem que cantava.

E de repente

Quebraram se nas veias os relógios onde

Os ponteiros marcavam vinte e cinco anos.

Vinte e cinco navios vinte e cinco mapas

Vinte e cinco viagens para sempre adiadas.

Meu amigo quebrou se como se fosse de vidro.

Ficaram vinte e cinco pedaços de um homem.

Poema de Manuel Alegre

A segunda canção com lágrimas

Meu amigo cantava. Dizem que cantava.

Meu amigo cantava. Dizem que cantava.

E de repente

Quebraram se nas veias os relógios onde

Os ponteiros marcavam vinte e cinco anos.

Vinte e cinco navios vinte e cinco mapas

Vinte e cinco viagens para sempre adiadas.

Meu amigo quebrou se como se fosse de vidro.

Ficaram vinte e cinco pedaços de um homem.

Poema de Manuel Alegre

Autocrítica

Conforme a vida que se tem o verso vem

A poesia é a vida?Pois claro!

Conforme a vida que se tem o verso vem

-e se a vida é vidinha, já não há poesia

Que resista. O mais é literatura,

Libertinura, pegas no paleio;

O mais é isto : o tolo dum poeta

A beber, dia a dia, a bica preta,

Convencido de si, do seu recheio…

A poesia é vida! Pois claro!

Embora custe caro, muito caro,

E a morte se meta de permeio.

Poema de Alexandre O’Neill

Quando em silêncio passas entre as folhas

Quando em silêncio passas entre as folhas,

Uma ave rara renasce da sua morte

E agita as asas de repente ;

Tremem maduras todas as espigas

Como se o próprio dia as inclinasse,

E gravemente, comedidas,

Param as fontes a beber te a face.

Poema de Eugénio Andrade

Prospeção

Riqueza universal

Não são pepitas de oiro que procuro.

Oiro dentro de mim, terra singela!

Busco apenas aquela

De me encontrar.

Do homem que resolve a solidão :

O tesoiro sagrado

De certeza nenhuma,

Soterrado

Por mil certezas de aluvião.

Cavo,

Lavo,

Peneiro,

Mas só quero a fortuna

De me encontrar.

Poeta antes dos versos,

E de sede da fonte.

Puro como um deserto.

Inteiramente nu e descoberto.

Poema – Miguel Torga

ORFEU REBELDE

AFIRMAÇÃO DE PODER E AUTO ESTIMA

Orfeu rebelde,canto como sou:

Canto como um possesso

Que na casa do tempo,a canivete,

Gravasse a fúria de cada momento;

Canto,a ver se o meu canto compromete

A eternidade no meu sofrimento.

Outros,felizes,sejam rouxinóis…

Eu ergo a voz assim,num desafio:

Que o céu e a terra ,pedras conjugadas

Do moinho cruel que me tritura,

Saibam que há gritos como há nortadas,

Violências famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte

No corpo dum poeta que a recusa,

Canto como quem usa

Os versos em legitima defesa.

Canto,sem perguntar à MUSA

Se o canto é de terror ou de beleza!

Poeta-Miguel Torga

Este é o seu novo site? Faça login para ativar os recursos de administrador e descartar esta mensagem
Fazer login