O segredo das feridas

“As feridas são cosidas pelos ponteiros do relógio…”
E talvez seja por isso que a cura dói tanto,
porque o tempo nunca cose imediatamente.

Primeiro, ele perturba, abana, quebra silêncios,
obrigando-o a olhar para o que tentou esconder
por detrás de sorrisos cansados ​​e palavras inacabadas.

Há feridas que não sangram por fora,
mas por dentro mudam tudo…
Tornam-te mais quieto, mais distante,
mais cuidadoso com o que dá
e com as promessas em que escolhe acreditar.

São feridas feitas de despedidas,
de ausências súbitas,
de desilusões que vieram
de alguém que nunca imaginou.

E embora muitos acreditem que o tempo cura todas as feridas,
a verdade é que o tempo não apaga…
ele apenas ensina a viver com a dor.

Aos poucos, vai reorganizando as memórias,
diminui o volume da tristeza,
e transforma algumas lágrimas
em lições silenciosas.

Há dias em que parece que se curou,
e outros em que uma música, um lugar ou uma memória
reabrem o que pensava estar fechado.

Mas, mesmo assim, no meio da nostalgia,
o relógio continua a marcar,
como se quisesse lembrar-te
que nenhuma noite dura para sempre.
Curar-se não significa esquecer…

Significa parar de se magoar
cada vez que pensa no que passou…
Significa compreender que sobreviveu
a momentos que pensava serem impossíveis,
e mesmo com a alma cansada,
continuou.

Talvez os ponteiros do relógio
não reparam rápido ou perfeitamente,
mas ponto a ponto, fecham fissuras invisíveis.

E um dia, sem dar por isso,
descobre que o que doía tanto
já não pesa o mesmo…
porque o tempo, silenciosamente,
acabou por acolher as partes de si
que a tristeza deixara quebradas.

Carla Milho as confissões de uma miúda gira 🥰❤️