
A notícia espalhou-se pela Terra do Nunca à velocidade do pó mágico.
Peter Pan queria casar.
Os Meninos Perdidos ficaram em choque.
A Fada Sininho começou imediatamente a desconfiar que alguém tinha voltado a deixar o rum dos piratas ao alcance dele.
Mas Peter estava decidido.
Só havia um pequeno problema.
Não fazia a mais pequena ideia do que era um casamento.
Por isso, resolveu pedir conselhos… precisamente ao Capitão Gancho.
O pirata olhou para ele durante largos segundos.
Depois olhou para o céu.
Depois para o crocodilo.
E, por fim, perguntou:
— Peter… tens febre?
— Não.
— Bateste com a cabeça numa árvore?
— Também não.
— Então só resta uma hipótese…
Gancho cheirou discretamente o copo de Peter.
— Ah! Já percebi… o meu rum voltou a fazer vítimas!
Peter cruzou os braços.
— Estou a falar muito a sério!
Gancho respirou fundo.
— Está bem. Então responde-me a uma pergunta.
— Diz.
— Sabes o que é um casamento?
Peter sorriu.
— Claro! É quando duas pessoas vivem felizes para sempre!
Gancho abanou lentamente a cabeça.
— Não, Peter… isso é o fim dos filmes.
O casamento começa precisamente quando aparecem as legendas.
Os Meninos Perdidos aproximaram-se para ouvir.
Aquilo prometia.
— Peter… um casamento não é perguntar todos os dias “O que há para comer?”
É perguntar: “Posso ajudar a fazer o jantar?”
Peter arregalou os olhos.
— Ajudar? Assim… de livre vontade?
— Sim.
Peter engoliu em seco.
Gancho continuou.
— Também não é desaparecer sempre que aparece um problema.
É ficar.
— Ficar?
— Sim.
— Mesmo quando não apetece?
— Sobretudo quando não apetece.
Peter começou a suar.
O Capitão Gancho sorriu pela primeira vez.
— Ainda queres casar?
Peter pensou.
Pensou muito.
Talvez durante uns quinze segundos.
O que, para ele, já era considerado uma reflexão profunda.
Depois respondeu:
— E… há intervalo?
Gancho fechou os olhos.
Os Meninos Perdidos começaram a rir.
O crocodilo engasgou-se com o relógio.
Nesse instante apareceu a Fada Sininho.
Olhou para os dois.
— Então?
Gancho respondeu imediatamente:
— Estou a explicar-lhe o que é um casamento.
A Fada Sininho sorriu.
— Boa sorte.
— Obrigado… vou precisar.
Peter levantou a mão como um aluno aplicado.
— Tenho outra pergunta.
Gancho já desconfiava.
— Diz.
— Num casamento ainda posso dizer “logo faço”?
O pirata soltou uma gargalhada tão grande que o gancho quase lhe caiu da mão.
— Podes…
Peter abriu um enorme sorriso.
Gancho continuou:
— …desde que a frase seguinte seja “e desta vez é mesmo já!”
A Fada Sininho bateu palmas.
— Finalmente alguém que fala a língua da maturidade!
Peter fez uma cara muito séria.
— Isto afinal é bem mais difícil do que enfrentar um crocodilo…
Gancho deu-lhe uma palmada amigável no ombro.
— Estás a ver? Passei anos a tentar apanhar-te com um gancho… e afinal bastou falar-te de compromisso para ficares sem saber para onde fugir!
Nesse momento, até o crocodilo começou a rir.
E contam as más línguas que, desde esse dia, sempre que Peter Pan diz:
— “Acho que estou preparado para casar!”
O Capitão Gancho limita-se a perguntar:
— Peter… já sobreviveste a uma semana sem dizer “logo faço”?
Peter baixa a cabeça, faz umas contas muito complicadas… e responde sempre o mesmo:
— Podemos voltar a falar disto… amanhã?
Ao que o Capitão Gancho suspira e conclui:
— Pronto… afinal o rum não tinha culpa nenhuma. O problema sempre foi o pó da eterna adolescência!😜
Com carinho,
Carla Milho,
As confissões de uma miúda gira 🥰❤️