Ao longe conseguia avistar alguém em cima daquilo que lhe parecia ser um palco elevado , uns metros do chão , pode ver que era a pessoa que tocava fortemente em vários tambores , como se tivesse mais que dois braços. Sentia se deslocado, cansado e ao avistar o primeiro táxi estacionado naquela praça , apressou os passos para chegar até ele , com maior rapidez!
Abrindo a porta do veículo, notou o objeto estranho que o motorista tinha colocado na sua cabeça. Parecia uma espécie de chapéu , mas ao observar com maior atenção, viu pormenores que o identificavam mais com um capacete aberto envolvido num tipo de papel colorido reluzente , e por todo esse papel estavam espalhados pequenos espelhos. Olhava boquiaberto para aquele objeto , e o seu espanto quase que o fazia esquecer de dar a sua morada ao motorista.
Assim que chega se a casa , iria telefonar para o hospital para perguntar a algum dos médicos que o tinham medicado , se era possível estar a ser vitima de alucinações, pois nada daquilo que vira até então, fazia o menor sentido. Estava consciente que se os médicos não tivessem considerado que ele estava melhor , apto a ter alta , ainda estaria no hospital , pois o seu esgotamento havia sido muito sério.
Através da janela do táxi, podia ver o cenário que acontecia lá fora…
Pessoas a caminhar como robôs, algumas até pareciam marchar abanando os seus braços de tal forma que pareciam estar a acompanhar cada nota musical que soava, agora mais perto, dos tambores. A figura que surgia diante de seus olhos, não lhe parecia ser humana.
Por momentos, esfregou os olhos e de seguida beliscou se para sentir que estava realmente acordado…
E um louco entrou na selva , e caminhou em frente, decidido a retomar a sua rotina, a sua vida.
Pelo caminho cruzou se com várias pessoas ,aliás com um vasto número de pessoas aparentemente “normais” ,todas elas vestidas de uma forma espampanante . Todas desfilavam como se estivessem num concurso de moda, em cima de passarelas , porém o louco notou que todas se movimentavam parecendo robôs que eram atraídos por algo.
Lá ao longe podia escutar o som de música , e o instrumento mais predominante naquela melodia , eram tambores que alguém tocava de forma soante e audível, pois sentia a força do que lhe parecia ser uma pessoa de braços fortes. Avançou continuando , sentindo se um pouco desenquadrado. Não tinha a certeza se estava a sofrer efeitos da medicação que os médicos lhe haviam prescrito, mas tinha a perceção que algo estranho se passava , algo surreal.
Tinha estado internado num hospital psiquiátrico durante meses , após sofrer um esgotamento total que o tinha obrigado a tal. E este era o seu primeiro dia de volta , ao mundo real , á realidade que tinha continuado a decorrer ,durante o tempo que estivera ausente .
Contudo não se recordava das pessoas serem e agirem daquela estranha forma , antes e isso fazia o sentir muito desconforto , cada vez que se cruzava com os restantes transeuntes.
Não conseguia deixar de pensar que tinha mesmo enlouquecido ao ponto de estar a sofrer de alucinações , o que por momentos o fez desejar voltar para aquele hospital , onde sentia segurança e normalidade. A praça de táxis , felizmente estava já ali , no terminar daquele quarteirão , e embora sua casa não fosse longe decidiu apanhar um táxi, ao invés do seu plano inicial que era caminhar e desfrutar da brisa fresca e de sol.
Por isso entrega te todos os dias de corpo e alma, vestido com a tua pele,
Entrega te sem aviso, entrega te ao que és feito, aquilo que te constituí…
A tua constituição mostra que és composto por pele, carne e osso, o que faz de ti um ser mortal, um ser com um tempo concedido mas um prazo limitado que um dia irá expirar e desse dia ninguém irá fugir por muito que corra, por muito que não queira aceitar a idade e o que com ela advém.
Por isso entrega te todos os dias de corpo e alma, vestido com a tua pele, com a tua carne e com o teu sangue a fervilhar de emoção, de alegria porque te é permitido permanecer aqui mais um dia…
Não queiras palmas ou glória pelas tuas conquistas, pelo que possas alcançar pois será sempre através do anonimato que a verdade a ti se irá revelar!
Ao ouvir o som ensurdecedor do grito de Madalena , todos os que estavam presentes naquele quarto de hospital sentiram um arrepio de frio , um arrepio que lhes percorreu o corpo por inteiro , desde a ponta dos pés até á raiz de seus cabelos . Parecia que estavam a sentir a presença de algo , algo que os seus olhos não podiam ver.
Os olhos inúteis realmente não conseguiam ver , os olhos daqueles que não sentiam nada a não ser uma empatia , um lamento até, por Francisco não conseguiam enxergar a presença que havia chegado ali , ao som do grito de Madalena. Sim , alguém ou algo, estava ali presente no meio de todas aquelas pessoas , e apenas duas a podiam ver ,alem de a sentirem também.
Ao levantar os olhos Madalena , enxergou com alguma dificuldade uma ténue luz branca que estava diante de si e que envolvia o corpo ainda com sinais de vida de Francisco. Ao limpar um pouco os seus olhos , Madalena sentiu de imediato uma sensação de paz , uma tranquilidade como nunca havia sentido em toda a sua vida , e naquele momento devido ao que estava a acontecer , pensou para si mesma que estava louca , que a pancada que lhe tinham dado na cabeça estava a evoluir para um estado de loucura. De repente , ouviu novamente a voz de Francisco . Mas desta vez não a ouvia nitidamente ,pois parecia ser mais um eco do que a sua voz real.
Não minha querida e doce Madalena , não estás louca ! É a mim que ouves , mas a voz que soa nos teus ouvidos , é a minha voz interior , a voz da minha alma que está camuflada pela ténue luz branca que vês a envolver te e ao meu corpo também- Disse a voz que era igual á de Francisco.
Madalena olhava para a boca imóvel no corpo de Francisco, e não via movimentos . Aliás o corpo naquele preciso momento estava completamente parado , tal como os de todos presentes naquele quarto , parecia que o tempo havia parado e paralisado tudo e todos , menos a ela .
Não tenho capacidade para compreender o que se está a passar , lamento .Mas não consigo ver o seu corpo mexer se , mas ouço a sua voz e sinceramente o meu desejo é partir juntamente consigo , Francisco ,pois não quero e não vou ficar novamente sozinha neste mundo !- Murmurou Madalena entre suspiros e lágrimas
E um momento inimaginável , mágico, longe do raciocínio e compreensão de qualquer mortal até mesmo do mais inteligente á face da Terra , acontece…
A ténue luz branca desaparece , aparecendo no seu lugar Francisco , com o seu velho aspeto , intato de qualquer marca , ferida ou cicatriz .
Não sinta medo , sou eu mas sim, a minha alma assumiu a minha forma finalmente , para que possa partir , pois é chegada a minha hora!
Madalena sentia se atordoada ao ver diante de si a figura de Francisco completamente intata. E num impulso , lançou se nos braços dele, suplicando lhe que não a abandona se nunca mais . Um líquido dourado escorreu pelo rosto da alma de Francisco, estava consciente que não poderia realizar o desejo de sua amada , daquela que era o grande amor da sua vida.
Mas outro fenómeno sobrenatural estava prestes a acontecer …
Alguém no Universo , alguém que acreditava na existência de um sentimento puro entre duas pessoas, tais como Francisco e Madalena , resolveu intervir e concretizar um desejo , mas apenas um …E enviou um feixe com uma intensa luz vermelha , vermelha cor de sangue , cor da paixão até aquele quarto de hospital…
Sem sentir nenhuma espécie de dor, nenhuma sensação de medo , Madalena foi atingida no corpo, no sitio onde se encontra o coração, e seu corpo tomba imediatamente inanimado no chão , mesmo ao lado da cama onde estava o corpo de Francisco.
No momento que o seu coração bate pela última vez , Madalena sorri , murmurando as suas últimas palavras … Obrigado , muito obrigado!
E as duas almas finalmente encontram se , fundindo se numa só irradiando aquele quarto de hospital com todas as cores do arco -íris !